Já ouviste mil vezes que "o dinheiro não traz felicidade". Mas a ciência está a mudar de ideias — e de forma bastante radical. Um estudo publicado em 2023 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), conduzido por um economista vencedor do Prémio Nobel, veio baralhar tudo o que pensávamos saber sobre esta relação.
Vamos a isso? 👇

📖 O que dizia o estudo antigo (e porque já não é suficiente)
Durante mais de uma década, o mundo aceitou como verdade um estudo de 2010, assinado por dois Nobel — Daniel Kahneman e Angus Deaton. A conclusão era simples: a felicidade subia com o rendimento, mas estagnava por volta dos $75.000/ano. A partir daí, mais dinheiro não fazia diferença.
A ideia colou. Tornou-se senso comum. Até algumas empresas ajustaram salários com base neste número.
Mas em 2021, Matthew Killingsworth, investigador da Universidade da Pensilvânia, publicou um estudo que contrariava exatamente isso. Usando uma app chamada Track Your Happiness, recolheu mais de 1,7 milhões de respostas de mais de 33.000 pessoas — e não encontrou qualquer "teto" de felicidade.
💡 Nota: O método de Killingsworth era diferente — a app perguntava às pessoas como se sentiam em momentos aleatórios ao longo do dia, capturando a felicidade em tempo real, não por memória ou avaliação global.
🔬 O novo estudo de 2023: o que mudou?
Em vez de ficarem cada um no seu canto, Kahneman e Killingsworth fizeram algo raro na ciência: juntaram-se. Com a professora Barbara Mellers como árbitro, realizaram uma "adversarial collaboration" — uma colaboração entre investigadores com conclusões opostas, com o objetivo de chegar à verdade.
O resultado? Nenhum dos dois estava completamente certo.
O que descobriram:
| Grupo | O que acontece com a felicidade | Teto identificado |
|---|---|---|
| Maioria das pessoas | Sobe de forma constante com o rendimento | Acima dos $500.000/ano (sem limite claro) |
| 30% mais felizes | Felicidade acelera acima dos $100.000/ano | Sem teto identificado |
| 20% mais infelizes | Sobe até ~$100.000/ano e estabiliza | ~$100.000/ano |
A conclusão mais importante: para a maioria das pessoas, mais dinheiro = mais felicidade. Mas há uma exceção importante.
⚠️ Atenção: Se és rico mas infeliz, mais dinheiro provavelmente não resolve. Segundo os investigadores, isso indica que a origem da infelicidade não é financeira — pode ser um luto, depressão ou outro problema que o dinheiro simplesmente não consegue comprar.
💬 O que diz o estudo sobre o porquê
Killingsworth explica que a razão principal pela qual mais dinheiro tende a aumentar a felicidade é simples: controlo sobre a própria vida.
- ✅ Com mais dinheiro, podes esperar por um emprego melhor em vez de aceitares qualquer coisa
- ✅ Podes ter acesso a cuidados de saúde de qualidade
- ✅ Podes viajar, investir em experiências, ajudar a família
- ✅ Reduces o stress financeiro do dia a dia
- ✅ Tens uma almofada para imprevistos
Como disse Killingsworth: "O dinheiro é apenas um dos muitos determinantes da felicidade. Não é o segredo, mas provavelmente ajuda."
🆚 Comparação: estudo antigo vs. novo estudo
| Critério | Estudo 2010 (Kahneman & Deaton) | Estudo 2023 (Killingsworth, Kahneman & Mellers) |
|---|---|---|
| Teto de felicidade | $75.000/ano | Depende do perfil (acima de $500k para a maioria) |
| Amostra | Gallup-Healthways Index | 33.391 adultos via app Track Your Happiness |
| Método de medição | Avaliação global da vida | Sentimentos em tempo real ao longo do dia |
| Conclusão principal | Felicidade estagna após $75k | Felicidade continua a subir com o rendimento (para a maioria) |
🧠 Mas o dinheiro não é tudo — a ciência também diz isso
Apesar de tudo, os próprios autores do estudo avisam: não tires conclusões erradas. Mais dinheiro ajuda, mas não resolve tudo.
Outros fatores com impacto comprovado na felicidade:
- 👥 Relações sociais — o maior estudo sobre felicidade da história, conduzido por Harvard durante 85 anos, conclui que boas relações são o principal motor de uma vida feliz
- 🎯 Propósito — sentir que o teu trabalho e vida têm significado
- 🏃 Saúde física — exercício regular tem um impacto real no bem-estar
- 🌍 Experiências vs. objetos — gastar dinheiro em viagens e momentos traz mais felicidade duradoura do que comprar coisas
- ❤️ Dar aos outros — estudos de neurociência mostram que a generosidade ativa áreas do cérebro ligadas ao prazer
💡 Dica: Segundo investigadores da Universidade de British Columbia, as pessoas que usam o dinheiro para comprar tempo — delegando tarefas que não gostam — reportam níveis de felicidade significativamente mais altos.
🎬 Vê o vídeo: Dinheiro compra felicidade?
Este vídeo do canal Ciência Todo Dia tem mais de 2 milhões de visualizações e explica de forma simples o que a ciência diz sobre este tema:
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❓ Perguntas frequentes
O dinheiro traz felicidade?
Sim, segundo o estudo de 2023 de Kahneman e Killingsworth, para a maioria das pessoas, rendimentos mais altos estão associados a maior felicidade. A exceção são as pessoas já ricas mas infelizes por razões não financeiras.
Qual é o valor a partir do qual a felicidade deixa de crescer?
Depende do teu perfil emocional. Para os 20% mais infelizes, estabiliza por volta dos $100.000/ano. Para a maioria, continua a crescer além dos $500.000/ano, sem limite claro.
O que o estudo antigo dos $75.000 dizia?
Em 2010, Kahneman e Deaton concluíram que a felicidade subia até ~$75.000/ano e depois estagnava. O novo estudo de 2023 revisou essa conclusão — o método original media sobretudo "ausência de infelicidade" e não felicidade real.
Se sou rico mas infeliz, mais dinheiro ajuda?
Não. O estudo é claro: se a infelicidade vem de causas como depressão, luto ou problemas relacionais, mais dinheiro não resolve. Como disse Killingsworth: "se és rico e estás infeliz, mais dinheiro não vai ajudar."
O que compra felicidade de forma mais eficaz?
A ciência aponta para experiências (viagens, momentos), tempo livre, relações sociais sólidas e generosidade. Bens materiais trazem satisfação momentânea, mas desvanecem rapidamente.
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📚 Referências
- Killingsworth, M.A., Kahneman, D., & Mellers, B. (2023). Income and emotional well-being: A conflict resolved. PNAS. https://doi.org/10.1073/pnas.2208661120
- Kahneman, D. & Deaton, A. (2010). High income improves evaluation of life but not emotional well-being. PNAS. https://doi.org/10.1073/pnas.1011492107
- Killingsworth, M.A. (2021). Experienced well-being rises with income, even above $75,000 per year. PNAS. https://doi.org/10.1073/pnas.2016976118
- CBS News (2023): Money happiness study – $500k vs $75k
- Penn Today (2023): Does more money correlate with greater happiness?
- NPR Planet Money (2024): Turns out money might just buy happiness
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